quarta-feira, 30 de maio de 2007

Real ou Surreal?

Você já se sentiu cansado do tipo de vida que leva? Sentiu você alguma vez a vontade de ser alguém diferente, tipo fugindo de sua realidade? Ou você gostaria de ter uma vida mais concreta, mais previsível e deixar de ser assaltados pelas surpresas e imprevistos? E na sua fé, já se frustrou com a realidade e sonhou ser mais consagrado ou fervoroso? A vida de dois de meus pintores preferidos ilustra como o real e o surreal afetam nossa mente e nossa própria caminhada espiritual.

Seu rosto gordinho é bem fácil de se encontrar entre o acervo de suas pinturas, Rembrandt; o maior pintor do século XVII é um holandês profundamente religioso da Igreja Reformada! Não que fosse egocêntrico, mas seus vários auto-retratos e as inúmeras vezes que ele se retrata entre os personagens de suas obras, proporcionam um tipo de diário visual de sua jornada espiritual.
Rembrandt teve uma ascensão profissional descomunal, tornando-se o retratista e pintor mais famoso da Holanda de seu tempo, enriqueceu ao ponto de tornar-se colecionador de obras de artistas como Rafael e Michelangelo. Casado e feliz morava tranqüilo num rico bairro de judeus de Amsterdã, onde teve quatro filhos. Mas depois de toda sua fé e prosperidade, Rembrandt como Jó, sofreu um revés em sua vida. Os filhos morreram, a esposa morreu, seus quadros tornaram-se menos valorizados, seu trabalho menos procurado e devido sua pouca habilidade administrativa, caiu em pobreza! Teve amores frustrados após a morte de sua esposa e finalmente faleceu sozinho e doente, um triste fim para um homem bom e uma mente artística genial.
Apaixonado por pintar temas bíblicos, este holandês protestante deixou inúmeras obras que demonstram sua fé. Assim como sua pintura é tomada de um realismo, sua fé é uma experiência bem real, não ideal, nem ausente de pecado, é sofrida, como a vida de todo cristão que tem vitórias e fracassos. Rambrandt sempre está por lá, no jogo de luz e sombra das cenas do calvário ele é um rosto que você não sabe direito como definir. Está condenando Jesus ou sofrendo ao contemplá-lo? Você pode ver todos os quadros religiosos de Rembrandt e sempre se fará duas perguntas: Onde ele está e onde eu estou neste quadro?
Quando Rembrandt pintou o retorno do filho pródigo, retratou o filho voltando maltrapilho como um tipo de cadáver ressurreto, o pai como um homem distinto o abraça sem preconceito ou rancor enquanto é observado pelo filho mais velho, indiferente a condição do irmão e cheio de dúvidas quanto a justiça do pai. Não é assim a realidade de nossas vidas? Hora nos sentimos como o filho pródigo um dissoluto arrependido, hora como filho mais velho e sua incompreensão da graça do pai, outra hora somos o próprio pai em busca de alguém que perdemos. Rembrandt dedicou o fim de sua vida para pintar o amor de Deus em episódios do Novo Testamento, dele aprendi que a vida espiritual tem momentos de triunfo mas também momentos de tropeços que dependem da graça de Deus. Nossa identidade dentro das pinturas muda conforme trilhamos nossas decisões.

Ele gostava de parecer maluco, e quem pode saber se realmente não era? Fato é que Salvador Dali, um espanhol irreverente, filho de um pai dominador e uma mãe católica de linha liberal, foi uma dessas personalidades que nunca serão entendidas completamente a não ser pelo seu trabalho. Salvador Dali ganhou fama e dinheiro, mas depois da morte de sua amada esposa definhou na depressão devido a solidão e doença, morrendo em 1989.
Dali era o maior expoente do Surrealismo e se a única coisa que você lembra ao ouvir ‘surreal’ é de bombom, você está muito por fora! Surrealismo era um estilo de arte que digamos; mostrava o que aconteceria se os sonhos e subconsciente se tornassem quadros. Os quadros de Dali tinham coisas do tipo relógios derretidos, pedaços do corpo humano reconstruídos, tigres pulando de dentro da boca de peixes e pessoas com o corpo em forma de gavetas. É claro, cada um tinha um significado! Por exemplo um quadro onde retrata o homem pós guerra tentando nascer do ovo que na verdade é o planeta Terra, representa toda a dor e esperança da reconstrução de um novo mundo após as guerras mundiais.
O contexto espiritual é constante em seus quadros, não vou julgar sua crença ou vida moral, mas percebo um homem de fé. Há dois quadros dele sobre a crucifixão, os dois tem a mesma característica: Um Cristo suspenso, mas sem os pregos! Perguntaram a Dali por que ele não pintou os pregos ao que respondeu: “...os pregos não o seguraram lá!”. O Cristo de Dali é Surreal, Ele está além de nossas expectativas, um tipo de Senhor Divino que está em pleno controle do que lhe acontece. Isto seria surreal, ou apenas o que não podemos ver ? O mundo surreal de Salvador Dali era na verdade seu único mundo, quando parou de pintá-lo devido a doença, definhou e morreu. O mundo real era pobre e triste demais para lhe dar alguma alegria, quando o perdeu, tornou-se depressivo e doente.
De Dali aprendi que a realidade não é um limite para Deus, pelo menos não aquilo que costumamos chamar de realidade, pois em um mundo secular como o nosso, temas como Novo Céu e Nova Terra, Volta de Jesus, Ressurreição dos mortos e a crença em um Deus que Criou tudo do nada sem processos evolutivos é algo que soa para alguns como ‘surreal’.

Rembrandt e Salvador Dali, um Holandês o outro Espanhol, bem diferentes como pessoa, como estilo artístico e religioso, histórias diferentes, um olhava para o real; o outro para o surreal. Mas será que na dimensão espiritual existe diferença entre real ou surreal? Existe um mundo físico e o outro metafísico? Existe um mundo natural e outro espiritual? No fundo talvez; seja apenas a mesma coisa pintada por visões diferentes. Como posso viver no mundo dos prédios, roupas, contas para pagar e vagas de estacionamento sem lembrar que existe bem ao lado e invisível aos meus olhos um mundo de conflitos entre anjos bons e maus, poderes espirituais e atuação sábia da Providência? Se vivo apenas como um fanático espiritualista sem me preocupar com o mundo real e físico, serei negligente com meus semelhantes, por outro lado, se vivo apenas para o mundo e reino do agora, esquecendo do Reino Invisível de Deus; então, o sonho dos dois mundos se encontrando torna-se vazio da minha presença. Acabo como um objeto na história sem esperança e identidade existencial. Jesus disse: “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” S. Jo.16:33, afinal, em um mundo de realidades tristes, Cristo é simplesmente surreal!

Por Pr. Ericson Danese

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