quinta-feira, 28 de junho de 2007

Resquícios do Criador nas Obras das Criaturas

A seguir você encontrará cinco reflexões que fiz da harmonização de minha experiência espiritual com meu próprio gosto pela arte. Apenas tentei tomar lições espirituais de artistas e suas obras, não os considero como um modelo nem muito menos suas obras como um tipo de Revelação. Mas particularmente creio que a arte ao longo dos séculos sempre demonstrou a própria visão religiosa e teológica das pessoas, os artistas muitas vezes não deram bom exemplo moral ou religioso, mas suas histórias são muito similares as nossas e o produto de seu trabalho é em verdade uma expressão ou uma releitura da mente humana e como ela entende o mundo ao seu redor. Convido você a ver como vejo a manifestação artistica humana e entender como cada um se comporta com a dádiva que Deus nos deu para melhor louvá-lo.

O Dom Trágico num mundo Abstrato

Você já se sentiu frustrado por não saber seu dom espiritual ou não saber como usá-lo? Já se frustrou por falta de oportunidades na vida? Já esteve descontente com sua família ou igreja? Desconsiderando a diferença entre dom espiritual e talento natural e considerando que ambos vem de Deus, vamos conhecer juntos o que chamarei de “Dom Trágico” na vida de gênios da arte e compreender como seus talentos lhes deram oportunidades, mas também desafios .
Ele foi um dos músicos mais notáveis de todos os tempos, Ludwig Van Beethoven, compositor alemão de música clássica deixou um legado artístico inestimável. Tinha sete irmãos sendo que destes, cinco morreram na infância, seu pai um músico alcoólatra batia no jovem Ludwig para que estudasse piano, mas surpreendentemente em lugar de desenvolver uma aversão pela arte já aos 11 anos destacava-se dos demais compondo suas primeiras músicas. Anos mais tarde, o famoso Mozart vendo uma apresentação do rapaz diria; “não o percam de vista, um dia há de dar o que falar”.
Entretanto, lamentavelmente um pesadelo vivo teve inicio na vida do grande músico por idos de 1724, quando tinha apenas 24 anos, iniciaram-se os primeiros indícios da surdez. Ele nunca ficou totalmente surdo, mas aos 46 anos não podia acompanhar e ouvir sua música e ouvia mínimos sons. Beethoven lutou desesperadoramente, foi a médicos, fez tratamentos diversos e até tentou usar amplificadores em forma de corneta. Mas tudo foi em vão, chegando a pensar no suicídio por volta de 1802 quando afligido também pela varíola que marcou seu rosto com uma cicatriz, escreveu seu testamento.
Felizmente ele não desistiu, continuou compondo, obras abstratas que ele só ouvia em sua imaginação, músicas incríveis como sua 9º sinfonia, talvez uma das mais famosas músicas de todos os tempos, curiosamente escrita por um surdo.
Em um dos episódios mais emocionantes de sua vida, ele viu seu amigo Unlauf reger sua 9º sinfonia, já que não ouvia nada permaneceu de cabeça baixa lendo a partitura, absolutamente distraído enquanto lia e imaginava o que a platéia ouvia, no final da música devido sua surdez, não percebeu que era ovacionado com inflamada salva de palmas até que seu amigo Unlauf o cutucou e Beethoven vendo a platéia emocionada curvou-se retribuindo a homenagem. Daquele dia até sua morte ainda compôs mais 44 músicas!
O abstrato esteve presente na vida de Beethoven em pelo menos seus dez últimos anos, o abstrato está em toda parte, lembro quando vi um quadro de Kandiski o pintor russo do abstracionismo pela primeira vez, era pintura abstrata não como as tentativas ridículas de chamar a atenção com coisas do tipo; deixar um gato com patas sujas pisar numa tela, jogar um balde de tinta num painel ou qualquer ignorância do gênero. Abstratos como os desenhos e músicas do Criador, abstratos como os desenhos e formas incríveis da asa de uma borboleta, como o abstrato das listras de uma zebra, como o abstrato da beleza da íris de um olho humano ou abstrato como a sinfonia dos pássaros ou o zunido do vento a soprar entre as folhas das árvores de um bosque.
O que podemos aprender da 9ª sinfonia de Beethoven, de um quadro de Kandisky ou das formas e cores curiosas que se formam aleatoriamente nas nuvens do céu? O que aprender do abstrato e dos dons e talentos que recebemos?
1º . O Abstrato não é desordem ou incompreensão: Ele é apenas uma expressão da realidade a ser descoberta, a própria vida se mostra confusa a muitas pessoas, mas com o olhar certo elas começam a ver sentido onde não existia, isso é um tipo de fé. Pense no problema existencial que afeta e faz tantas pessoas perderem seu tempo tentando definir o sentido de suas vidas, elas normalmente fazem uma grande busca para no fim terminarem normalmente em conclusões simples e previsíveis, em outras palavras elas partem do abstrato e depois de muito tempo voltam ao mesmo lugar de onde saíram, mas agora vendo sentido no que antes não entendiam. Um exemplo: O filho pródigo desgostoso com um tipo de vida que não lhe trazia felicidade na casa do Pai, sai e quando volta vê sentido na felicidade que ele rejeitava anteriormente. Quando o Filho Pródigo interpretou a felicidade que ele não entendia como tristeza, foi isto que ele conseguiu sentindo-se descontente num local de felicidade e mais tarde feliz num local de tristeza, ele não entendia os dons que tinha e julgava a casa do Pai como um local incompreensível do seu ponto de vista.
2º . O ser humano sofre a síndrome do “Dom Trágico”: Recebemos dons e talentos que curiosamente parecem se virar contra nós, um Beethovem que não ouve as próprias músicas, um Portinari que morre envenenado com o chumbo das tintas que usava para pintar, um Aleijadinho que perde suas mãos que fazem das esculturas o seu desabafo! A síndrome do Dom Trágico leva homens e mulheres lamentarem por não terem tido uma chance, milhares de artistas, cientistas e gênios que nunca foram descobertos porque estavam no lugar errado na hora errada e foram perdidos no abstrato de suas histórias. Ter um dom e não poder usar é como ter um carro e não ter habilitação para poder dirigir. No ‘Dom Trágico’, Deus dá o dom e a vida cruel neste mundo de pecado traz a espera para os que têm fé, traz ódio para os que têm o dom do amor. Mas em verdade, os Dons Espirituais vencem as tragédias e produzem gente que não vive de auto-superação ou de auto-ajuda, produz gente que vive de fé e do poder do Espírito.
3º . É sempre bom ter alguns dons mas não ter outros, o Espírito é muito sábio em distribuir Seus dons, I Cor.12:11, talvez você almejasse outras posições ou outras tarefas e habilidades para sua vida, mas lembre comigo de Beethoven, com o dom da música mas impossibilitado de ouvir os aplausos. Às vezes é melhor não poder ouvir tantos aplausos, muito orgulho próprio inútil pode ser evitado desta forma! Todos os talentos e dons sem amor, são inúteis! Mas qualquer dom sem a humildade perde o objetivo da edificação do corpo de Cristo e descarrilha do caminho do serviço.
“Portanto, procurai com zelo os melhores dons, e eu vos mostrarei um caminho ainda mais excelente” I Cor.12:31

Por Pr. Ericson Danese

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Depressão ou Superação. A diferença que faz a posição da cabeça!



Outro dia percebi que as obras de dois grandes escultores mostram exatamente como a depressão emocional se apodera de alguns e como alguns se libertam dela, mesmo em meio as situações mais desvantajosas. Vamos conhecer dois gênios das artes plásticas e suas obras;
Auguste Rodin, escultor francês que nasceu em 1840 foi o pioneiro nas esculturas de fragmentos isolados do corpo, como suas obras “A mão de Deus”, onde a mão de Deus é representada como a mão de um escultor, “Homem que Caminha” e “Torso”. Suas obras mais famosas são aquelas que as figuras e formas parecem tentar desgrudar-se do material esculpido, as mais conhecidas são “O Beijo” e “O Pensador”.
Na verdade, “O Pensador” talvez seja uma das esculturas mais famosas do mundo, provavelmente a maioria das pessoas nem saibam quem é Rodin mas já viram o “O Pensador” ou uma de suas muitas réplicas. Todos ficam intrigados sobre qual seria a natureza de sua profunda meditação! Para saber qual é o misterioso pensamento representado na obra, temos que conhecer a história desta obra.
Rodin o esculpiu inicialmente com o título de “O Poeta”; para ser uma de várias peças da entrada do museu de Paris representando o poema “A Divina Comédia” de Dante o famoso autor medieval que retratou o pensamento de seus dias sobre o inferno. “O Poeta ou O Pensador” seria o próprio Dante em frente ao portal do inferno ponderando sobre seu poema! O Pensador, literalmente parece estar lutando com um imenso drama interior! O que passaria em sua mente? Sente-se condenado pelo juízo de Deus? Está inquieto quanto ao seu futuro e sua salvação? Tem dúvidas sobre o que encontrará depois do juízo? Teme a conseqüência de algum de seus atos? Tenta procurar alguma saída ou alternativa?
Parece que Rodin realmente esculpiu o pensador observando o drama de muitos seres humanos, talvez, seja por esta razão que tantos se identificam com O Pensador, pois ele não se parece com um filósofo ou mero teórico, é simplesmente alguém que tenta desesperadoramente resolver seu problema! Mas seu maior problema é que ele está sozinho, inutilmente se esforça para resolver algo que não está ao seu alcance. De Rodin e suas impressionantes esculturas e seu intrigante “Pensador”, aprendi que a ciência, a psicologia, a arte, a filosofia e todos os campos do saber, contribuíram em muito para o desenvolvimento do ser humano, mas não podem remover a preocupação do semblante do “Pensador”. Se tão somente a estátua tivesse vida e pudesse mover sua cabeça para cima, seu nome mudaria de “O Pensador” para “O Contemplador ou O Adorador” e seu semblante seria outro!
Antonio Franscisco Lisboa (1730-1814) mais conhecido por seu apelido “Aleijadinho” foi o maior escultor brasileiro. Este mulato filho de um Português com uma escrava Africana, sofreu a vida toda a rejeição da sociedade pela cor da sua pele e pela doença que lhe deu seu apelido. Entretanto, a vida toda se dedicou a arte sacra, como escultor ou como arquiteto.
Fato é que com 40 anos uma praga terrível o acometeu deteriorando progressivamente seus membros, ninguém sabe se era lepra, sífilis ou reumatismo deformativo. Seja o que for, levou seus pés e dedos de suas mãos. Mas isso não foi o suficiente para detê-lo, seu escravo amarrava o cinzel e o martelo ao toco de suas mãos e ao polegar que sobrara e o Mestre Aleijadinho esculpia incansavelmente.
De suas inúmeras obras (confesso que o estilo barroco e esculturas de santos em madeira não me atraem muito), gosto e destaco “Os Profetas”, esculpidos em pedra sabão em Congonhas MG. Acho interessante o fato de que todos são muito parecidos uns com os outros, todos tem um tipo de semelhança com o Cristo que costumamos visualizar nas obras de Aleijadinho, estão numa subida e alguns até apontam para cima, comparo isso a semelhança da mensagem dos profetas, sempre um tipo de “olhe para cima”! Olhe para cima Deus está falando com você! Olhe para cima, Deus tem um plano! Olhe para cima, o Messias vem vindo! Olhe para cima, Jesus está voltando!
Fico comparando as lições espirituais que aprendo de obras tão diferentes em estilo e propósito como as de Rodin e Aleijadinho. No “Pensador” de Rodin, você tem um Europeu vivendo na prosperidade e saúde e retratando toda a angústia e inquietude que sua sociedade vive ao continuar olhando para baixo e olhando para dentro de si mesma; por outro lado, nos “12 Profetas” do mestre Aleijadinho você vê o retrato sofrido do trabalho de um homem que tenta ser curvado pela doença e a rejeição, mas não desiste de louvar o Sacro e olhar para o alto.
Em nossa vida podemos ter muitas dúvidas quanto à fé ou ao desconhecido, podemos ter lutas interiores sem uma aparente solução, podemos viver a rejeição por nossa condição social, cor da pele ou credo. Talvez tenhamos perdido a família, o trabalho ou a saúde, mas precisamos parar de olhar para baixo como “O Pensador”, parar de olhar para si mesmo e começarmos a olhar para cima, continuar a lutar, trabalhar e desafiar tudo que nos impeça de erguer a cabeça!

Por Pr. Ericson Danese

quinta-feira, 7 de junho de 2007

"Nudez constragedora"

Curioso, como pessoas tão talentosas às vezes são completamente incapazes de trabalhar em equipe. É impressionante que quando a história reúne um time de gênios, eles devoram-se em ciúmes e rivalidades. Um caso desses aconteceu durante o período que marcou a história mundial o qual chamamos de Renascimento, quando a Europa reunia os melhores pintores, arquitetos e escultores!
Em 1475 na Itália nascia Miguel Ângelo Buonarroti, seu pai arrancava o mármore do solo e ele dava vida ao mármore. Num misto de colérico e melancólico, Michelangelo tornou-se um grande escultor, ele costumava dizer que as esculturas já estavam lá e que ele apenas tirava o restolho da rocha. Davi, Moisés, Pietá, seria difícil dizer qual escultura exibe melhor o ideal da época, a perfeição! No entanto o maior escultor da história vivia uma relação tumultuosa com seus colegas e patrões.
Em 1504 Michelangelo com 29 anos foi a Florença atendendo ao pedido da pintura de um mural, mas para sua surpresa encontrou no mesmo trabalho e local o famoso Leonardo da Vinci com 51 anos, e o que poderia ter sido a maior obra artística em equipe, tornou-se o palco de uma batalha de orgulhos feridos.
Leonardo, filho bastardo de um nobre com uma camponesa era homem genial, cientista, artista e filósofo. Tornou-se um grande inventor e estudioso, no campo artístico desenvolveu a técnica de sombra e luz e fez pinturas enigmáticas como “Monaliza” e “A última Ceia”, entretanto era um grande procrastinador, ou seja, geralmente não terminava seu trabalho. Festeiro e sociável Leonardo foi interpelado por moradores de Florença pedindo que lhes explicasse um trecho do ‘Inferno’, famosa obra do poeta Dante. Ao ver Michelangelo se aproximar e sabendo que este era admirador de Dante, disse tentando buscar a simpatia do escultor; “Michelangelo vai explicar para vocês”, mas Michelangelo pensou que era um deboche de Leonardo e reagiu ofendendo Leonardo quanto a um famoso trabalho de escultura, inacabado por Da Vinci, “Explique-se você que fez um cavalo de bronze que nunca terminou”. Leonardo ofendido e humilhado publicamente; voltou para casa com uma crise de baixo-estima e escreveu “... alguma vez eu fiz alguma coisa?”. Nenhum dos dois terminou o trabalho em Florença e nunca mais tiveram qualquer relacionamento, salvo encontros de olhares a distância.
A fase principal da obra de Michelangelo se dá na cidade de Roma, onde ele vive uma relação intrigante de respeito e insolência com o Papa Julio II. É uma época de transformações no mundo, Maria a Católica impõe terror na Inglaterra, os reis da Espanha e de Portugal dividem a América do Sul sob a tutela do Papa e no norte da Europa a Reforma começa a germinar. Enquanto isso em Roma, o militar e astuto negociante Papa Júlio II decora o Vaticano com seu time ‘super-artistas’ e lança a pedra fundamental da Basílica de São Pedro. O mundo está mudando, mas os pintores e escultores italianos estão preocupados em competir pelo título de ‘o melhor de Roma’ e descobrir qual deles alcançou a perfeição!
Júlio II chamou Michelangelo para pintar uns “anjinhos” no teto da capela cistina, isso para um escultor que nem se dizia pintor foi como pedir ao projetista da Ferrari para construir um carrinho de supermercado. Michelangelo sem escolha apresentou um projeto que lhe custaria quatro anos de trabalho e muita briga com o Papa. O Papa Júlio II nesta época, como que para provocar Michelangelo e forçá-lo terminar o trabalho; contrata Rafael Sanzio para pintar aposentos papais conhecidos como Stanza della Segnatura em 1508. Rafael que era amável e submisso, era um jovem que tinha presenciado o combate artístico entre Michelangelo e Leonardo em Florença quatro anos antes, no entanto seu estilo lembrava mais o de Leonardo o que causava um misto de cólera e ciúme em Michelangelo que ali perto pintava a Cistina. Rafael retratou na Stanza pinturas que retravam “A Disputa” um encontro da Trindade, Maria, João Batista, João o Evangelista, Pedro, Moisés, Abraão, Davi e outros representando a religião. Do outro lado da sala, o monte Parnazo está inundado de poetas como Dante e Apolo e donzelas que cantam com frivolidade e pouca religiosidade e no outro canto da sala está à obra prima de Rafael, “A escola de Atenas” reunindo sábios e filósofos de várias épocas, tendo ao centro Sócrates e Platão, apontando para o real e o mundo das idéias.
Tudo isso; em outras palavras é um retrato de Júlio II (que como Papa teve três filhos e não deixava beijar seus pés devido a deformações causadas por doenças venéreas) e o Papado que em sua pompa e doutrina manifestava a fé unida ao luxo da arte secular e do conhecimento pagão. Enquanto isso, Michelangelo fazia no teto da Capela Cistina um verdadeiro protesto teológico.
Ao retratar Deus ele o faz representando um homem poderoso, mas marcado pelas rugas do saber, sério, mas com olhar amoroso, decidido e aplicado em sua tarefa de criar. Com um golpe e ele separa luz e trevas, o sol é apenas uma bola que ele rola com a ponta do dedo e o braço estendido cria um homem belo e puro, cheio de vigor e esperança que nasce sob a curvatura do planeta que o acolhe. O teto da Cistina mostra a esperança no coração atribulado de Michelangelo que vive sob a opressão dos Papas e as críticas dos colegas, o teto da Cistina contraria tudo que Michelangelo sente!
Mas o mundo ao redor de Michelangelo, Rafael e Leonardo mudava, Julio II morreu e deu lugar a um burguês da família Médice chamado Leão X que através de indulgências, financiou a construção da Basílica de São Pedro a qual Michelangelo desenhou a cúpula. A exploração foi o estopim para Reforma de Lutero que incendiou Zuiglio, Calvino e outros que embora desconhecidos e vivendo em países diferentes se uniram para banir os engodos Papais da mente e religião do povo.
Quando o Papa Paulo III o comissionou para voltar a Cistina e pintar a janela do altar, ele trabalhou de 1534-41 no ‘O Julgamento Final’, obra que retrata os ímpios caindo no inferno com criaturas demoníacas com caras engraçadas e corpos assustadores que os agarram. No ‘andar’ seguinte, subindo estão os salvos contemplando um Cristo estende sua mão para punir e julgar! Como será que ele se sentia ao pintar isso? O quanto sua pintura estava diferente de quando pintou o teto! Havia passado uma vida de solidão e questionamentos, já não tinha amigos e apenas o admiravam como artista, mas quem estava ao lado do homem?!
Nas pinturas da Capela Cistina, o homem está nu na criação e finalmente no juízo final estão novamente nus, uma nudez constragedora! O pecado roubou a inocência e ninguém pode cobri-la, quem não quis a justiça de Cristo, ( na pintura ) tem que O contemplar mesmo estando indigno diante dEle! Fiquei imaginando como seria, se na volta de Jesus estivéssemos todos pelados, olhando para Jesus, sem poder nos esconder dEle ou uns dos outros. Engraçado ou trágico? Vergonhoso ou assustador? Cada um responde por si!
Num trocadilho da história, um bispo implicou com a obra e a nudez dos personagens, depois de reclamar ao Papa, foi insolentemente pintado por Michelangelo com orelhas de burro entre os perdidos. Exigiu que o Pontífice obrigasse Michelangelo a desfazer a pintura ao que o Papa respondeu “uma vez no inferno, nem o Papa pode tirá-lo de lá”. A pressão foi tanta que o Papa mandou um pintor amigo de Michelangelo cobrir os nus com uns paninhos, o coitado do pintor foi esquecido e só é lembrado como ‘pintor de paninhos’. Também é assim na vida espiritual, quem tenta cobrir o pecado com paninhos das próprias obras acaba por passar vergonha!
Há três coisas que impedem a equipe mais talentosa de trabalhar unida:
Inveja manifesta no medo de ser superado pelo colega;
Perfeccionismo unido a intolerância;
Orgulho espelhado na desconfiança ao próximo;
Enquanto Michelangelo e seus colegas Leonardo, Rafael e outros apenas marcavam as paredes de Roma com suas obras e continuavam nus diante de Deus, com vidas egoístas, ciumentas e mesquinhas; atrás dos títulos e reconhecimento de Reis e Papas, longe dali, Lutero e os outros não marcavam, mas transformavam a história unindo-se apesar das diferenças para levar o mundo a conhecer a justiça de Cristo, não por pinturas que almejavam a perfeição no conceito humano, mas pela Palavra que tem a mensagem na perfeição de Deus. A palavra e a necessidade de proclamá-la os uniram!

Por Pr. Ericson Danese