quinta-feira, 7 de junho de 2007

"Nudez constragedora"

Curioso, como pessoas tão talentosas às vezes são completamente incapazes de trabalhar em equipe. É impressionante que quando a história reúne um time de gênios, eles devoram-se em ciúmes e rivalidades. Um caso desses aconteceu durante o período que marcou a história mundial o qual chamamos de Renascimento, quando a Europa reunia os melhores pintores, arquitetos e escultores!
Em 1475 na Itália nascia Miguel Ângelo Buonarroti, seu pai arrancava o mármore do solo e ele dava vida ao mármore. Num misto de colérico e melancólico, Michelangelo tornou-se um grande escultor, ele costumava dizer que as esculturas já estavam lá e que ele apenas tirava o restolho da rocha. Davi, Moisés, Pietá, seria difícil dizer qual escultura exibe melhor o ideal da época, a perfeição! No entanto o maior escultor da história vivia uma relação tumultuosa com seus colegas e patrões.
Em 1504 Michelangelo com 29 anos foi a Florença atendendo ao pedido da pintura de um mural, mas para sua surpresa encontrou no mesmo trabalho e local o famoso Leonardo da Vinci com 51 anos, e o que poderia ter sido a maior obra artística em equipe, tornou-se o palco de uma batalha de orgulhos feridos.
Leonardo, filho bastardo de um nobre com uma camponesa era homem genial, cientista, artista e filósofo. Tornou-se um grande inventor e estudioso, no campo artístico desenvolveu a técnica de sombra e luz e fez pinturas enigmáticas como “Monaliza” e “A última Ceia”, entretanto era um grande procrastinador, ou seja, geralmente não terminava seu trabalho. Festeiro e sociável Leonardo foi interpelado por moradores de Florença pedindo que lhes explicasse um trecho do ‘Inferno’, famosa obra do poeta Dante. Ao ver Michelangelo se aproximar e sabendo que este era admirador de Dante, disse tentando buscar a simpatia do escultor; “Michelangelo vai explicar para vocês”, mas Michelangelo pensou que era um deboche de Leonardo e reagiu ofendendo Leonardo quanto a um famoso trabalho de escultura, inacabado por Da Vinci, “Explique-se você que fez um cavalo de bronze que nunca terminou”. Leonardo ofendido e humilhado publicamente; voltou para casa com uma crise de baixo-estima e escreveu “... alguma vez eu fiz alguma coisa?”. Nenhum dos dois terminou o trabalho em Florença e nunca mais tiveram qualquer relacionamento, salvo encontros de olhares a distância.
A fase principal da obra de Michelangelo se dá na cidade de Roma, onde ele vive uma relação intrigante de respeito e insolência com o Papa Julio II. É uma época de transformações no mundo, Maria a Católica impõe terror na Inglaterra, os reis da Espanha e de Portugal dividem a América do Sul sob a tutela do Papa e no norte da Europa a Reforma começa a germinar. Enquanto isso em Roma, o militar e astuto negociante Papa Júlio II decora o Vaticano com seu time ‘super-artistas’ e lança a pedra fundamental da Basílica de São Pedro. O mundo está mudando, mas os pintores e escultores italianos estão preocupados em competir pelo título de ‘o melhor de Roma’ e descobrir qual deles alcançou a perfeição!
Júlio II chamou Michelangelo para pintar uns “anjinhos” no teto da capela cistina, isso para um escultor que nem se dizia pintor foi como pedir ao projetista da Ferrari para construir um carrinho de supermercado. Michelangelo sem escolha apresentou um projeto que lhe custaria quatro anos de trabalho e muita briga com o Papa. O Papa Júlio II nesta época, como que para provocar Michelangelo e forçá-lo terminar o trabalho; contrata Rafael Sanzio para pintar aposentos papais conhecidos como Stanza della Segnatura em 1508. Rafael que era amável e submisso, era um jovem que tinha presenciado o combate artístico entre Michelangelo e Leonardo em Florença quatro anos antes, no entanto seu estilo lembrava mais o de Leonardo o que causava um misto de cólera e ciúme em Michelangelo que ali perto pintava a Cistina. Rafael retratou na Stanza pinturas que retravam “A Disputa” um encontro da Trindade, Maria, João Batista, João o Evangelista, Pedro, Moisés, Abraão, Davi e outros representando a religião. Do outro lado da sala, o monte Parnazo está inundado de poetas como Dante e Apolo e donzelas que cantam com frivolidade e pouca religiosidade e no outro canto da sala está à obra prima de Rafael, “A escola de Atenas” reunindo sábios e filósofos de várias épocas, tendo ao centro Sócrates e Platão, apontando para o real e o mundo das idéias.
Tudo isso; em outras palavras é um retrato de Júlio II (que como Papa teve três filhos e não deixava beijar seus pés devido a deformações causadas por doenças venéreas) e o Papado que em sua pompa e doutrina manifestava a fé unida ao luxo da arte secular e do conhecimento pagão. Enquanto isso, Michelangelo fazia no teto da Capela Cistina um verdadeiro protesto teológico.
Ao retratar Deus ele o faz representando um homem poderoso, mas marcado pelas rugas do saber, sério, mas com olhar amoroso, decidido e aplicado em sua tarefa de criar. Com um golpe e ele separa luz e trevas, o sol é apenas uma bola que ele rola com a ponta do dedo e o braço estendido cria um homem belo e puro, cheio de vigor e esperança que nasce sob a curvatura do planeta que o acolhe. O teto da Cistina mostra a esperança no coração atribulado de Michelangelo que vive sob a opressão dos Papas e as críticas dos colegas, o teto da Cistina contraria tudo que Michelangelo sente!
Mas o mundo ao redor de Michelangelo, Rafael e Leonardo mudava, Julio II morreu e deu lugar a um burguês da família Médice chamado Leão X que através de indulgências, financiou a construção da Basílica de São Pedro a qual Michelangelo desenhou a cúpula. A exploração foi o estopim para Reforma de Lutero que incendiou Zuiglio, Calvino e outros que embora desconhecidos e vivendo em países diferentes se uniram para banir os engodos Papais da mente e religião do povo.
Quando o Papa Paulo III o comissionou para voltar a Cistina e pintar a janela do altar, ele trabalhou de 1534-41 no ‘O Julgamento Final’, obra que retrata os ímpios caindo no inferno com criaturas demoníacas com caras engraçadas e corpos assustadores que os agarram. No ‘andar’ seguinte, subindo estão os salvos contemplando um Cristo estende sua mão para punir e julgar! Como será que ele se sentia ao pintar isso? O quanto sua pintura estava diferente de quando pintou o teto! Havia passado uma vida de solidão e questionamentos, já não tinha amigos e apenas o admiravam como artista, mas quem estava ao lado do homem?!
Nas pinturas da Capela Cistina, o homem está nu na criação e finalmente no juízo final estão novamente nus, uma nudez constragedora! O pecado roubou a inocência e ninguém pode cobri-la, quem não quis a justiça de Cristo, ( na pintura ) tem que O contemplar mesmo estando indigno diante dEle! Fiquei imaginando como seria, se na volta de Jesus estivéssemos todos pelados, olhando para Jesus, sem poder nos esconder dEle ou uns dos outros. Engraçado ou trágico? Vergonhoso ou assustador? Cada um responde por si!
Num trocadilho da história, um bispo implicou com a obra e a nudez dos personagens, depois de reclamar ao Papa, foi insolentemente pintado por Michelangelo com orelhas de burro entre os perdidos. Exigiu que o Pontífice obrigasse Michelangelo a desfazer a pintura ao que o Papa respondeu “uma vez no inferno, nem o Papa pode tirá-lo de lá”. A pressão foi tanta que o Papa mandou um pintor amigo de Michelangelo cobrir os nus com uns paninhos, o coitado do pintor foi esquecido e só é lembrado como ‘pintor de paninhos’. Também é assim na vida espiritual, quem tenta cobrir o pecado com paninhos das próprias obras acaba por passar vergonha!
Há três coisas que impedem a equipe mais talentosa de trabalhar unida:
Inveja manifesta no medo de ser superado pelo colega;
Perfeccionismo unido a intolerância;
Orgulho espelhado na desconfiança ao próximo;
Enquanto Michelangelo e seus colegas Leonardo, Rafael e outros apenas marcavam as paredes de Roma com suas obras e continuavam nus diante de Deus, com vidas egoístas, ciumentas e mesquinhas; atrás dos títulos e reconhecimento de Reis e Papas, longe dali, Lutero e os outros não marcavam, mas transformavam a história unindo-se apesar das diferenças para levar o mundo a conhecer a justiça de Cristo, não por pinturas que almejavam a perfeição no conceito humano, mas pela Palavra que tem a mensagem na perfeição de Deus. A palavra e a necessidade de proclamá-la os uniram!

Por Pr. Ericson Danese

Um comentário:

Adelaide disse...

Como é edificante podermos, contemplar na história, exemplos que nos fazem refletir nossas atitudes atuais, porisso analisando testemunhos de algumas pessoas, podemos modificar nossas atitudes, pois ja sabemos de antemão onde vai dar.
Ótimo artigo!!
Parabens!!