sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Caminhando com Jesus - 1


A EXPECTATIVA MESSIÂNICA

Conhecer os passos da vida de Jesus é inútil sem entender Seu pensamento e o básico da teologia Bíblica do Velho Testamento. Jesus era um judeu e como tal, refletia a religião e o pensamento do Velho Testamento. Ao executar seus propósitos de vida, Jesus acreditava estar cumprindo as Escrituras. Ele não se via como o fundador de uma nova religião (Mt.5:17-20), nem pretendia romper com a religião de seu povo embora não restringisse sua mensagem apenas a estes (S. Jo.4:22-23), disse que cumpriria o que estava escrito a respeito dele mesmo (S.Jo.5:39).
Lendo os Evangelhos, em especial S.João, percebe que Jesus via a si mesmo como o cumprimento de uma promessa ou de uma profecia “Pois se crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim ele escreveu. Mas, se não credes nos escritos, como crereis nas minhas palavras? (S.Jo.5:46-47). Foi reconhecido desta forma por seus seguidores que mais tarde o identificaram e pregaram a respeito dele como o Cristo (Mt.16:16).
Cristo é uma palavra grega para a o hebraico ‘Messias’, que significa o ungido, o escolhido, o enviado de Deus, o Libertador. Mas por que a humanidade precisaria de um ‘Messias’ ou Salvador?
A Bíblia inicia contando o relato da criação em Gn.1, pormenoriza em Gn.2 com o relato da criação do Jardim do Éden e a descrição de como foi feita a humanidade, para então no cap.3 relatar o porque a humanidade criada por um Deus de amor que fez tudo perfeito está sujeita a sofrer com dor, morte e fome. Conforme o relato, a humanidade fora enganada por um anjo rebelde disfarçado de serpente que levou Adão e Eva a desobedecerem a lei de Deus e desconfiarem do caráter de Deus entrando em rebelião contra o Criador ao desobedecer Sua lei e entregando o mundo ao comando do Inimigo usurpador.
As conseqüências segundo a Bíblia é a morte para a humanidade e a desarmonia e sofrimento na natureza de todo o planeta. O grande conflito, iniciado na morada de Deus (Ez.28 e Isa.14:12-16) entre um anjo rebelde e seus aliados contra o governo de Deus e seus anjos (Ap.12:7-12) estendeu-se para a Terra, tornando a humanidade cativa de Lúcifer (Satanás).
O homem está destinado à morte, sofrimento e uma natural tendência ao erro (pecado). Para quebrantar esta sorte, Deus coloca em andamento o plano (Rm.16:21-24) de enviar seu Filho, o comandante das hostes Celestiais (Ap.12:7 e Dn.12:1)para viver uma vida de perfeição (Heb.4:15) de acordo com a lei de Deus e morrer de forma substitutiva no lugar do pecador (S.Jo.3:16). Segundo esta teologia, o Messias oferecendo-se sem pecado, não podia ser detido pela morte e ressurgindo se tornaria vitorioso e capaz de salvar todos os que nele crerem (S.Jo. 5:21-27). Assim, justiça e misericórdia são satisfeitas de forma que a redenção do homem é possível por meio do Messias intercessor.
Esta teologia foi expressa na primeira promessa messiânica de Gn.3:15 e ampliada no ritual do sacrifício no altar e no santuário hebreu, onde um cordeiro era morto em lugar do pecador, simbolizando o messias que um dia viria para esta função. A compreensão de que nasceria um salvador mandando por Deus era tão grande que o primeiro filho de Eva recebeu um nome Messiânico, Caim (Adquirido de Deus) que veio a se tornar uma lamentável decepção. Ao longo da história dos adoradores de Jeová, muitos outros nomes expressaram esta esperança.
Ao observar as religiões antigas, podemos perceber várias semelhanças entre elas e uma aparente distorção de uma teologia ancestral a respeito do Messias. Seriam estas semelhanças ‘ecos’ de uma história comum, partilhada no passado, mas divergida ao longo dos anos de separação dos povos dando origem aos seus mitos e lendas? Por que os antropólogos nunca encontraram uma antiga civilização pagã?Como explicar as semelhanças das religiões antigas, muitas vezes entre povos que não tinham contato?
Ao conhecer estes mitos pagãos, percebe-se que a expectativa de um Salvador (Messias) vindo de Deus era universal. As religiões antigas sempre partilham as seguintes características semelhantes à teologia Bíblica:
1. Deus ou (deuses) Criador e um conflito celestial, em que um anjo, espírito ou deus rebelde vem a Terra e envolve a humanidade neste conflito.
2. Homem moldado pelos deuses, rebelado numa história envolvendo uma árvore e um dilúvio que recai sobre os seus descendentes.
3. Representação deste espírito rebelde na forma de um dragão, serpente, réptil ou monstro marinho.
4. O filho dos deuses é mandando a Terra e destrói a serpente.
5. Ofertas sacrificais.
6. Morte e Ressurreição do filho dos deuses.
7. Juízo Final e Restauração da Humanidade.
(veja abaixo algumas representações nas mais diferentes mitologias do guerreiro divino que fere uma serpente ou dragão [Egito - serpente do mundo dos mortos que era vencida por Osíris, Grécia - Hércules vencendo a hidra, Germânia - Thor vencendo a serpente marinha, Babilônia e Assíria - Marduk vencendo Tiamat o dragão do caos)


Se nos detivermos na figura Messiânica, ele está sempre presente na cultura de todos os povos. Ele é Enki dos Sumérios, Baal dos Cananeus, Assur dos Assírios, Marduc dos Babilônios, Saoshiant do Zoroastrismo, Krishina dos Hindús e Oriente, Manitú dos Apaches Americanos, deus sol dos Americanos Pré Colombianos, Hórus e Osíres dos Egípcios, Hércules e Perseu dos Grego/Romanos, Thor dos Nórdicos e muitos outros.
Quase sempre é um guerreiro de filiação divina ou homem/deus, filho dos deuses com uma mulher mortal, sempre é uma criança anunciada que tem um nascimento espetacular e vem para destruir o mal ou um demônio na forma de serpente. Outras vezes o Messianismo é expresso na forma de um poderoso profeta ou mestre religioso que guia milhares a salvação por seus ensinos como Zoroastro, Buda e Confúcio. Ou ainda, é visto como um rei humano em que sua história dramática o transforma no soberano e organizador da sociedade perfeita como é o pensamento dos da época em relação aos faraós Egípcios, Hamurabi, Ciro o Grande, Alexandre Magno, César e as próprias lendas do Rei Arthur.
Não podemos provar que os mitos e culturas lendárias antigas descendem do conhecimento ancestral comum da profecia de um Messias em Gn.3:15, também não podemos de forma categórica provar que a história real foi preservada na Bíblia no livro de Gênesis e recontada de forma distorcida pelos povos que descenderam dos filhos de Noé. Nem podemos provar que Noé existiu e toda humanidade descende dele, no entanto, as semelhanças religiosas entre povos diversos e o senso comum de uma expectativa Messiânica estão muito bem documentados no registro da civilização e são indiscutíveis até mesmo para os céticos.
Esta expectativa messiânica é revelada até mesmo em nossas estórias modernas da ficção científica do cinema e dos quadrinhos do século XX e XXI, em filmes como Matrix, Star Wars e personagens como o Superman. Tudo isso é uma manifestação artística de um inconsciente cultural ancestral da humanidade. Seria o pensamento Messiânico uma manifestação meramente psicológica de divinizar os heróis e mártires?
Se assim o for isto não explicaria tantas semelhanças teológicas entre o paganismo e a Bíblia. Entretanto, que lugar restaria para a teoria da Evolução? Nela o importante é sobreviver e não morrer para ser herói. Animais não coroam heróis libertadores, eles apenas se submetem a força do dominador para não perecer. Todavia o homem é capaz de sonhar e nutrir expectativas quanto ao futuro. Animais não divinizam seus mortos e nem sonham com um futuro melhor. Vemos que a expectativa messiânica é muito mais que um psiquismo coletivo da humanidade!
Em nenhuma civilização ou povo esta expectativa foi mais forte do que no povo de Israel. Desde a profecia de Moisés (Dt.18:15) até o último profeta judeu do Antigo Testamento (Malaquias 3-4) o povo de Israel aguardou o Salvador. Este Messias não proveria uma mera libertação temporal, pois quando Moisés anunciou sua vinda o povo já era livre, no entanto com o passar do tempo as opressões voltaram por meio dos Filisteus, Sírios, Assírios e Babilônios e a figura Messiânica começou a ser identificada com um regente libertador a semelhança do grande Rei Davi, uma vez que os profetas anunciavam que o Messias seria da tribo de Judá e da linhagem real de Davi.
Na verdade, os profetas apresentavam dois tipos de profecias Messiânicas. O primeiro era a figura do Messias como um substituto do drama humano, isto pode ser visto alguns Salmos como o 22 e 23, Isaías 53 e outros além do próprio ritual do Santuário e seus sacrifícios. O segundo, era a figura do Messias como um rei soberano de prosperidade e bênçãos que venceria todos os inimigos do seu povo e julgaria as nações, Isaías 60-66, Amós, Sofonias 3 e muitos outros.
O povo, é claro, preferiu a figura de um Messias vencedor e perdeu de vista o Servo Sofredor. Evidentemente os profetas não falavam de dois Messias diferentes, mas de dois momentos diferentes do mesmo Messias. O profeta Daniel apontava a chegada do Messias, sua unção e claramente anunciava sua morte (Dn.9:25-27), no entanto previa que mais tarde no fim dos tempos este Messias (príncipe) se manifestaria para salvar seu povo num evento que seria marcado pela ressurreição dos mortos (Dn.12:1-2).
Não há dúvidas de que o povo Judeu e mesmo os pagãos confundiam os dois tipos de profecias a respeito do Messias. O judaísmo moderno chega atribuir a identidade do servo sofredor de Isaías 53 ao próprio povo Judeu que foi injustamente perseguido ao longo dos anos. No entanto, Isa. 53:10 fala de um indivíduo, pois apenas um indivíduo poderia dar a sua alma como oferta pelo pecado.
A expectativa Messiânica inundou o mundo dos 100 anos anteriores e posteriores ao início da era cristã. Judeus em geral acreditavam que o Messias seria um super profeta, no poder dos grandes Moisés, Elias, Jeremias e outros (Mt.16:14). O povo esperava que a profecia feita a linhagem de Davi em II Sam. 7:16 se cumprisse e sua independência dos Romanos fosse total, através da restauração do reino Davídico, fato que popularizou o termo Messiânico ‘Filho de Davi’. Aqueles que tinham o Messias como uma figura escatológica (eventos finais) esperavam a figura de um poderoso ser, o Filho do Homem do profeta Daniel.
Nos dias de Jesus, o mundo estava pronto para uma mensagem transformadora. O grego era a língua falada e escrita por todo o império Romano, assim os textos dos profetas com o difícil hebraico podiam ser melhor popularizados. Qualquer ensino de um novo profeta poderia ser mais facilmente disseminado. A paz entre os povos havia sido imposta pelos Romanos que também construíram estradas ligando as cidades do mundo inteiro. Qualquer mensagem poderia ser levada de um lugar ao outro com pouca dificuldade!
Ao mesmo tempo em que Roma controlava a paz e liberdade, Roma era odiada como opressora. O mundo ansiava um libertador. Até entre os Romanos aflorou a consciência Messiânica e antigas tradições percorriam o mundo pagão especulando que do oriente sairia um libertador. Tácito escreveu “Se devemos crer, foi escrito no livro antigo dos sacerdotes que em determinado tempo o Oriente deverá governar o mundo através de alguém que virá da Judéia”, e Suetônio disse “aos oráculos prometidos que num tempo determinado homens da Judéia haveriam de governar o mundo”[1].
A escritora EGW diz em DTN, pg.33, “Fora da nação judaica houve homens que predisseram o aparecimento de um instrutor. Estes homens andavam em busca da verdade e foi-lhes comunicado o Espírito de inspiração”. O mundo estava pronto para o Messias e ele estava chegando!
No próximo capítulo de nossa série, ‘Caminhando com Jesus’, você conhecerá o mundo dos dias de Jesus. O aconteceu entre o Velho Testamento e o Novo Testamento? Quem dominava nos dias de Jesus? Quem eram os grupos religiosos e políticos da época? De onde vieram os fariseus e saduceus? Quem foram os Herodes?

por Pr. Ericson Danese

[1] Augsburger, The Life and Words of Jesus, p.46.

Um comentário:

Marcelo Antônio Milani disse...

Essa caminhada pela história vai longe. Aguardo os próximos capítulos com expectativa. Maranata!